Créditos da imagem: Nilay Patel
Parece contraditório, mas faz todo sentido. A Apple vendeu mais iPhones do que nunca no segundo trimestre de 2026. A receita do aparelho subiu 22% e chegou a US$ 57 bilhões. Isso aconteceu em meio a uma escassez global de chips que afetou até o próprio processador do telefone.
Como é possível? Tim Cook, ainda no comando, resumiu em uma frase: “a demanda pelo iPhone estava fora dos limites”.
O problema agora não é vender. É fabricar.
O que importa saber de uma vez
A Apple faturou US$ 111,2 bilhões no trimestre. Foi o melhor mês de março da história da empresa, segundo o próprio Cook. Mas as restrições de componentes ainda existem. E podem se espalhar para o Mac, porque a demanda continua alta.
Primeiro, o número que ninguém esperava
US$ 57 bilhões só com iPhone. É um número absurdo mesmo para os padrões da Apple. E veio num momento em que a indústria inteira de tecnologia sofria com falta de semicondutores. A maioria das concorrentes teve que cortar previsões de venda. A Apple, não.
O segredo não é mágica. A empresa há anos negocia diretamente com fornecedores, compra capacidade de produção com antecedência e até ajuda fabricantes a montar linhas exclusivas. Quando a crise chegou, a Apple já tinha estoque e prioridade.
Mas nem tudo são flores. Cook deixou claro: há “um pouco menos de flexibilidade no momento para conseguir mais peças”. Traduzindo: os estoques estão no limite. Se a demanda subir mais, a Apple pode não conseguir acompanhar.
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O que mais vendeu além do iPhone
O Mac teve um trimestre forte: US$ 8,4 bilhões. Os novos notebooks e desktops lançados recentemente ajudaram. O iPad ficou em US$ 6,91 bilhões – um número sólido, mas que mostra como o tablet perdeu espaço para o próprio Mac em certos usos.
O destaque silencioso, porém, foi serviços. Esse segmento – que inclui Apple Music, Apple TV, iCloud, Apple One e a comissão da App Store – bateu US$ 30,98 bilhões. É outro recorde histórico. E lucrativo: serviços têm margem muito maior que hardware.
Quem acompanha a Apple sabe que esse é o verdadeiro futuro da empresa. Vender iPhone atrai clientes. Manter eles dentro do ecossistema com assinaturas é que gera dinheiro recorrente.
O detalhe que muda tudo (e passou meio batido)
Pouco mais de uma semana antes desse balanço, a Apple anunciou que Tim Cook vai se aposentar em setembro de 2026. Quem assume é John Ternus, atual chefe de engenharia de hardware. Cook continuará como presidente executivo – uma posição menos operacional, mas ainda influente.
Esse balanço forte é, de certa forma, um presente de despedida para Cook. Ele entregou números excelentes mesmo num ambiente de escassez. Para Ternus, a herança é boa, mas o desafio é enorme: manter o ritmo sem Cook no dia a dia.
Pontos que a Apple não vai destacar no release
Ninguém fala de escassez sem querer esconder algo. A Apple admite “menos flexibilidade”, mas não diz quais linhas de iPhone já sofreram atraso na entrega. Nos fóruns de usuários, há relatos de prazos maiores para modelos Pro e Pro Max em alguns países.
Outro ponto: o crescimento do iPhone veio num ano sem lançamento de novo design radical. Foi mais uma evolução interna. Isso mostra que a marca já vende sozinha. Mas também expõe uma fragilidade: se a inovação física diminuir de vez, a demanda pode cair mais rápido do que a Apple gostaria.
iPhone x outros negócios da Apple no trimestre
| Segmento | Receita (US$ bilhões) | Crescimento vs. ano anterior |
|---|---|---|
| iPhone | 57,0 | +22% |
| Serviços | 30,98 | Recorde histórico |
| Mac | 8,4 | Impactado por alta demanda |
| iPad | 6,91 | Estável |
Quem ganha e quem perde com esse cenário
Para o consumidor:
- Quem quer um iPhone novo pode encontrar prazos de entrega maiores em modelos específicos.
- O preço não caiu – e não deve cair. Demanda alta significa pouco incentivo para promoção.
Para investidor:
- Serviços batendo recorde é o sinal mais importante. É ali que a margem cresce.
- A transição para Ternus adiciona um risco pequeno, mas real. Ele nunca comandou uma empresa do tamanho da Apple.
Para concorrentes (Samsung, Xiaomi, Google):
- A notícia é ruim. Se a Apple vende tanto mesmo com falta de chip, o mercado premium continua dominado por ela.
O que esperar daqui pra frente
Três coisas são praticamente certas.
Primeira: a escassez de chips não vai acabar amanhã. A Apple vai continuar priorizada, mas os atrasos pontuais vão persistir até meados de 2027.
Segunda: serviços vão ultrapassar US$ 35 bilhões por trimestre antes do fim do ano. É a maior bola da vez.
Terceira: John Ternus vai herdar uma máquina funcionando. O teste real dele será o lançamento do iPhone 17, já sem Cook no dia a dia. Se aquilo der certo, a transição estará consolidada. Se der errado, os números de hoje não vão proteger a Apple.
Veredito (sim, vou dar minha opinião)
Esse trimestre da Apple é tecnicamente impressionante. Mas também é um retrato da desigualdade no mercado de chips: enquanto pequenas fabricantes param linhas de produção, a Apple compra tudo na frente e ainda anuncia recorde.
Cook sai no auge. E isso é raro. A maioria dos CEOs espera até o negócio desandar. Ele não esperou. Ternus assume com o armário cheio de boas notícias – e um único perigo: a demanda do iPhone pode ser insustentável a longo prazo. Porque nenhuma empresa cresce 22% pra sempre no mesmo produto.
Se você está pensando em comprar um iPhone, não espere promoção. Se você tem ações da Apple, fique de olho em serviços, não em celular. E se você torce contra, lamento: não foi nesse trimestre que a Apple tropeçou.
Fonte: The Verge





